Tudo publicado sobre 'El Camino de Santiago'

Passa muito pouco da meia-noite do sábado, dia em que chegamos a Santiago de Compostela. A menina responsável pelo albergue, cansada, reclama com quem ainda está do lado de fora que já faz alguns minutos que ela deveria ter ido para casa. Mas o francês continua falando. Com um cigarro de maconha misturada com tabaco, seus olhos injetados, ele diz o que tem para dizer pausadamente misturando sua língua com o inglês. Faz três meses que está andando e agora chegou.
Só não sabe exatamente para que chegou.
É sua cidade destino, evidentemente. Mas, agora que chegou, o que faz? Agora que chegou, o que descobriu? Consigo, a única certeza que tem é a de que fez algo difícil e que foi a primeira vez que decidiu fazer algo e o fez. Até o fim.
As menininhas também francesas estão noutro albergue e são em tudo diferentes de seu compatriota. Inseparáveis. É sua primeira viagem sozinhas, passam pouco dos dezesseis anos. À noite, antes de dormirem, lêem salmos ou passagens dos Evangelhos uma para a outra. Às vezes passávamos por elas no Camino enquanto baixinho, bem baixinho, cantavam juntas hinos católicos.
São a imagem da alegria, sorrisos largos, descrevem a Missa sobre o túmulo do Apóstolo em cada momento num francês corrido e apressado que entendo mal. Entusiasmo: têm Deus em si. Na verdade, não é preciso entender o que dizem porque está óbvio, não importa o motivo, se pela viagem sozinhas como sonho adolescente, se por sentirem de fato a alegria religiosa, estão felizes. Felicíssimas.
Santiago de Compostela é uma lindeza de cidade. Não pela entrada a pé, meio decepcionante em suas construções modernas e conjuntos habitacionais feios, mas pelo centro histórico. Há lojas de souvenires por toda a parte e gente, muita gente, quase todos turistas. Mas aqui e ali nos acusamos, os peregrinos. Andamos devagar. Mancamos. É um certo esforço subir escadarias – e o rosto acusa. As barbas estão espessas.
Os rostos acusam mais coisas. Alegria exuberante como a das francesinhas é rara. O mais comum é uma expressão vazia como a do jovem francês.
Pela primeira vez, ao acordar no dia seguinte à chegada, os peregrinos vão mudando de roupa. As botas ainda estão nos pés, ainda estão sujas de barro e poeira, mas as camisetas leves que secam rápido são substituídas por camisetas de malha compradas no comércio local. Nas estampas, slogans turísticos, logomarcas da cidade como a concha estilizada que vemos a toda hora no Camino – ou as setas amarelas sob fundo azul. As calças curtas e shorts se vão e pares de jeans, retirados do fundo das mochilas e que devem ter pesado tanto durante as intermináveis manhãs e tardes de andança, começam a aparecer.
Bebe-se. Bebe-se com abundância cerveja belga, holandesa e espanhola. Bebe-se vinho – tudo que era tão comedido, uma tulipa ou duas, uma taça se tanto porque beber demais custaria um dia de mal estar intolerável pelo exercício físico que não se dá bem com álcool, todo o comedimento passa. Bebe-se em canecas de meio litro enchidas e reenchidas.
Vamos pegar a Compostela, o certificado de peregrino. Já tomei banho mas a estafa física, as dores, tudo está lá. A cidade é um labirinto de ruas estreitas ao redor da Catedral. Tenho mau humor, um mau humor profundo que tento esconder de meus amigos belgas mas que num comentário pode estourar. Então seguro – e ele passa um pouco quando descobrimos onde mostrar nossos passaportes com uma coleção infindável de carimbos que indicam por onde passamos e em que data.
Há um formulário para preencher: nome, idade, nacionalidade e motivo da viagem. Religioso, religioso e outros, não religioso. Meus amigos belgas são honestos e recebem o diploma meio sem-graça escrito em espanhol destinado aos pobres ateus. Mas eu quero a Compostela, o diploma em latim sobre papel bonito com Petrum Doria, no acusativo, escrito. Procuro uma desculpa interna, uma justificativa, algo que me absolva. Fiz pelo ritual. Com toda sinceridade. Um ritual latino e ibérico, da minha gente, um ritual que também é meu porque isto é o que sou: latino, ibérico. E se alguns chamam a isto religião, lo que sea. Marco a coluna religioso e outros, ganho a Compostela.
Sebastiaan e Margaux olham para mim um quê estupefatos com a maleabilidade com a qual nós latinos podemos tratar a verdade. E acham graça.
Alex, Mark, Roy e Yakoov, nossos amigos israelenses que chegaram à cidade um dia antes, nos esperam para beber. Todos têm a Compostela religiosa, em latim. Não tiveram qualquer preocupação de justificar para si mesmos, disseram motivos religiosos e pronto. Esta habilidade latina de fingir a verdade na qual deveras crê: também os espanhóis que preenchem os documentos devem ter estado perante os rapazes, todos com sobrenomes judeus, todos israelenses, e no entanto lhes concederam o documento católico sem fazer qualquer pergunta. É só uma formalidade da burocracia celeste.
Padre Mauro aparece na Missa dos Peregrinos celebrada na Catedral. Não faz quase nada de tempo, ele era um de nós. Agora veste uma bata branca com um imenso lenço verde. É um dos auxiliares do padre que comanda a cerimônia que dura pouco mais de uma hora. O ponto alto, no fim, é quando o gigantesco defumador é aceso, alçado e balançado pelo grande salão, espalhando fumaça e um cheiro agradável. Uma missa com serviços em espanhol, galego, italiano, inglês e latim.
Depois nos cruzamos na praça central. “Roupa bacana aquela da missa”, comento. “Eu até parecia um padre de verdade, não é?”, ele ri, estende a mão e me cumprimenta. “Parabéns”, diz para emendar na seqüência, “nós todos merecemos.” Aí nos despedimos.
Pouco mais de 480 quilômetros caminhados em três semanas. Os pés já não doem tanto quanto doíam ontem mas dores musculares novas vão aparecendo aqui, ali. Aí somem. É só ignorar.
Quando nos reconhecemos uns aos outros vagando pela cidade, mesmo que apenas rostos familiares de algum albergue passado, paramos para um aperto de mão. Segunda-feira, alguns voltam de avião ou de ônibus ou de trem para suas casas. Outros seguem o Camino num trecho final até Finsterre, o ponto ocidental mais extremo do Império Romano. Há quem diga que na verdade era lá, não em Santiago, que os druidas se encontravam. Outros explicam que era na praia ali que os primeiros peregrinos pegavam suas conchas para provarem que estiveram em Santiago. Este não é um trecho que se faz a pé: vão todos de ônibus ou carro alugado. O ritual contemporâneo dita que as roupas da viagem devem ser queimadas na praia.
Eu não vou ao fim da Terra: segunda toco para Madri. Tem uma exposição de Picasso badalada, quero ver. Quinta-feira desembarco no Galeão. Aí, em solo tupinambá, faço a barba. Até lá os bigodes se metem lábio adentro. Incomoda um quê.
E no entanto o vazio não vai embora. Nos encontramos, nos cumprimentamos, comentamos que conseguimos, somos lembrados na missa quais estatísticas: “Vindo de St. Jean Pied de Port, um brasileiro”. O que exatamente descobrimos? Me vêm à cabeça um verso de Antonio Machado:
Caminhante, não há Camino
Se faz o Camino ao andar
Ao andar se faz o Camino
E ao voltar os olhos para trás
Vê a senda na qual não mais voltará a pisar
Antonio Machado e seu irmão, Manuel, foram poetas espanhóis da geração de 1898. Ele ficou do lado dos Republicanos quando veio a guerra, Manuel no dos Fascistas. Uma guerra fratricida que deixa marcas em todos os com trinta para cima, educados com o currículo escolar de Franco. A geração que seguiu a dos irmãos foi a de Lorca, Picasso, Dalí, Miró, Luís Buñuel – uma geração de gênios. Picasso pintou o Camino, Lorca escreveu sobre o Camino, Buñuel filmou o Camino. Eram todos agressivamente anti-católicos mas não escapavam ao Camino.
Outro manco passa, sua barba espessa, o semblante abatido.
Não é Santiago que importa. É a viagem, as conversas, as pessoas, os momentos de solidão, de angústia, de riso, as histórias que cada um conta. São encontros muito intensos porque estão todos de alguma forma entregues. Mesmo os ateus.
Fico com um dia: andei 40 quilômetros, estava exausto, uma infecção bacteriana já me havia tomado a perna embora não o soubesse. Conheci uma menina alemã que vestia roupa com motivos hindus e distribuía cópias do Evangelho de São João. Me parecia vinda de um quadro surrealista, como que de Alice e seu país das Maravilhas. Aí cheguei numa cidade medieval, dobrei uma praça e havia uma corrida de touros e velhos de boina e casaquinhos. Picasso poderia estar ali. Ou era uma cena de Buñuel. Ou Lorca a descreveria. Exausto, dolorido e num momento solitário do Camino, naquele dia, jamais fui tão feliz. Tenho certeza que circulei por Los Arcos com um sorriso na cara.
Caminante, no hay Camino,
Se hace Camino al andar.
Obrigado pela leitura.
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O tédio nos acompanhou todo o dia. Não era muito o que precisávamos andar e, no entanto, todos, até os mais lentos, nos passaram. Um caminho mais feio que bonito sem qualquer inclinação intensa, subida que fosse, ou descida. Vinte quilômetros até o quilômetro 19 antes de Santiago para um albergue ruim com umas 120 camas, suficiente para acolher a todos sem qualquer necessidade de corrida.
Conversamos, como conversamos sempre, mas uma conversa sem muito assunto. E tendo chegado almoçamos, dormimos, circulamos por uma cidade de concreto armado cruzada por uma rodovia nacional como se fossemos incapazes de encontrar o que fazer. Não terminou – mas é como se o dia fosse uma pausa desnecessária entre ontem, em frente ao riozinho gelado e agradável, um afluente do Minho, e amanhã, na cidade do Apóstolo.
Havia dois túmulos pelo Camino de hoje. Na verdade, um memorial para um jovem padre que morreu antes de chegar a Santiago e o túmulo de fato de um peregrino que não agüentou o esforço e caiu tão próximo, aos 69 anos. Nas últimas semanas, passei por outros dois túmulos no meio do nada, de peregrinos. Um japonês, um alemão, dois espanhóis no total. Nos albergues, dizem que os infartos vêm de manhã e alertam os mais velhos para os sintomas.
O porquê de alguém levar o esforço físico ao ponto fatal me escapa. Mas é parte do Camino. Já era parte na Idade Média, quando grupos de bandidos ou a guerra com os mouros poderia flagrar os caminhantes. E, no entanto, continua presente hoje. Não só é parte do Camino como muitos dos que morrem querem ser enterrados onde caíram.
Nos túmulos, depositam pedras. Eu trouxe uma pedra do Brasil. Uma pedra que veio do paredão do Corcovado, não muito atrás da minha casa. Depositei lá a minha hoje.
É um costume judaico, depositar pedras em túmulos. Ninguém sabia disso, simplesmente o fazem.
Curioso.
Imagens, amanhã.
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A Igreja na Galícia olha o Camino com desconfiança – mas isto é a instituição. O resultado é que andando de pueblo em pueblo, alguns que não parecem ter mais do que uma dúzia de casas, as igrejas sempre estão fechadas aos peregrinos. Algumas são bem antigas e em todas há um padre. Os padres nos viram a cara. Mas se a instituição no geral se comporta assim desconfiada, vez por outra no nível pessoal acaba sendo diferente.
Era cedo, ainda, quando passamos por Boente, não mais que 10h. O padre, um senhor com seus cinqüenta e poucos vestindo camisa preta, calça preta e um paletó azul marinho que quase passava por preto interceptava peregrinos. “Vocês não querem conhecer minha igreja?”, ele perguntava. “Vale a pena, é muito bonita. Mesmo. Venham. O que é uma pausa no Camino?” E a cada não, passava ao peregrino seguinte. Era uma igreja nova, meio sem graça, agradecemos o convite, explicamos que precisávamos chegar cedo. “Estão sempre com pressa, vocês.”
Um dos homens que está em nosso grupo é padre, também – mas só descobrimos hoje. Se hospeda nos mesmos albergues do que nós faz uns dias – também não tem muito mais do que cinqüenta. Às vezes parece, fala a língua que o sujeito sacar. Se lhe perguntam em francês, vai de francês. Se a opção é alemão – que seja. Ou inglês. Ou espanhol. Ou italiano, que é a sua língua – padre Mauro (foto) nasceu em Roma.
Sujeito engraçado e bem humorado. Estávamos numa fila para nos inscrevermos no albergue do dia, sol quente, cansaço, ele logo atrás de nós – e atrás dele e dos dois padres seus contemporâneos com quem anda, todos em roupas civis, estavam umas meninas francesas e italianas. Sebastiaan engatou num papo com as moças, a fila andou, padre Mauro não teve dúvidas: foi adiante. Meu amigo belga reclamou. “Você que fique esperto”, disse sorrindo o padre. “Enquanto está procurando namoradas, eu que não preciso disto vou indo. Com qual das suas cabeças quer pensar? No fim, todos ficamos felizes.”
O seu Camino começou em Munique, onde vive. São pouco mais de 2.700 quilômetros andados que somarão 85 dias quando chegar em Santiago, no sábado. Nunca parece cansado, tem sempre uma história engraçada para contar sem qualquer doutrina ou catolicismo – não à toa que sequer desconfiávamos que era padre. Trabalhou muitos anos no México numa missão – é do tipo cujo vida é com os pobres. Devoto de Nossa Senhora de Guadalupe. Como quando chegou no albergue, ontem, não havia mais cama, esticou o saco de dormir no chão e lá dormiu. Não tem dores ou bolhas.
Eu tenho. Duas. Surgiram nos últimos dias, não chegam a incomodar, ficam rigorosamente no mesmo lugar em cada um dos pés: entre o dedão do pé e o seguinte. Culpa das sandálias de dedo que ponho quando chego aos albergues, após tirar botas e meias. Estamos agora no quilômetro 38 antes de Santiago, o albergue de Rivadizo é incrivelmente agradável. Tem jardim, está dividido em casas de madeira com poucas beliches em cada quarto, há tomadas suficientes para todos os celulares, câmeras – e até notebooks. À frente passa um riozinho de águas geladas onde pomos os pés para descansar enquanto os europeus do norte nadam.
A paisagem da Galícia, conforme entramos na província de La Coruña, conhecida pelo seu time de futebol e cuja capital é Santiago, mudou. As florestas continuam bonitas mas as casas de lascas de pedra tipicamente celtas e as fazendas humildes dão lugar a casas modernas mais confortáveis e evidentemente mais ricas. Há mais lixo no caminho, latas de refrigerante, papel de chocolates, de tudo, coisa que acusa o excesso de peregrinos dedicados apenas aos últimos 100 quilômetros.Dois tipos curiosos, uns espanhóis altos e muito magros que andam sempre juntos, começaram a nos chamar a atenção hoje. Já os vejo faz dias, mas foi Margaux quem reparou: não é raro que cruzemos por eles enquanto andamos e lá estão, sentados num bar, descansando. Nunca os vemos nos ultrapassar. Mas é chegar no albergue e já estão devidamente instalados, aproveitando a siesta lado a lado. Os turistas que fazem o caminho em geral são bem-humorados e não disfarçam o fato de que de trecho em trecho tomam ônibus de excursão.
Com estes dois, mistério. Nunca estão cansados – mas de uma forma diferente da falta de cansaço do padre Mauro. Nele, a fadiga é evidente, o suor das seis horas caminhadas também. A dupla de espanhóis magros está sempre refrescada como se os 40 graus das 13h horas neste verão seco de incêndios galego não os atingisse. Tomam táxis, talvez. Ou têm um carro que estacionam distante do Camino para colher o carimbo que evidencia sua passagem pelos pontos chaves.
Tipos curiosos, pois: para que fingem fazer o Camino? Que é um fingimento para os outros peregrinos. Reclamam das agruras como todos, lamentam as dores. Dividem conosco as dificuldades de fingimento.
As paredes e marcos estão mais pichados, também, do que de todo o resto do Camino. Em geral são recados. Uma das mais típicas é Buen camino; outra, Animo!, seguida do nome de alguém. E a cada cem metros lá está o recado que um amigo deixou para outro nalguma língua, Animo, fulano, que está perto – em inglês ou alemão ou holandês ou o que for. No quilômetro final do dia, um me chamou atenção: “Ânimo, Marina” – seguido de algo em português. Não muito depois este alguém repetia o incentivo com outra frase para sua Marina, mas não era português. Era galego.
Lembrei doutra Marina. Ânimo, pois, Marina, que o Camino já-já chega ao fim.
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Em Palas de Rei, quilômetro 65 antes de Santiago de Compostella, começa uma corrida. Fizemos, eu, Margaux e Sebastiaan (os dois na foto) em bom tempo, quase sete horas, os 25km que nos separavam de Portomarín até aqui. Bom tempo descansado, parando a cada cinco quilômetros para uma pausa, um sorvete, um gole d’água, às vezes por mais de vinte minutos. Cada gramado era um convite. Estávamos bem antes das 14h no destino. E sobravam, no albergue municipal, contadas, três camas.
Albergue há em quase todas as cidades, freqüentemente mais de uma opção. Custam dinheiro. Não muito, uns 10 euros. Mas os municipais não custam nada. E como estou acompanhado de estudantes, este estirão final será à moda européia: contando cada centavo. Fará bem à carteira. O resultado é que o caminho até Santiago terá de ser calculado. Como há corrida aos albergues públicos, não adianta andar um trecho muito grande, chegar depois das 15h e não encontrar vaga. Há que chegar cedo.
Não havia tanta competição até há uns dias. Mas o Camino oficial, que vale diploma de peregrino, são estes últimos 100km. Então a população de andarilhos triplica, os momentos de solidão na estrada vão às favas e tudo fica muito prático. Para ter certeza de que haverá cama para dormir de graça é preciso dar menos pausas, começar mais cedo, andar menos que trinta quilômetros e estar na porta do albergue até 13h. Depois disto, só contando com a sorte que tivemos hoje.
Albergues baratos ou que cobram não mais do que o peregrino estiver disposto a doar existem antes. Sempre têm vaga. Pertencem à prefeitura aqui, à Igreja ali. Mas na Galícia a Igreja não participa. Olha com uma desconfiança desgraçada. Acha que tudo é negócio ou turismo barato ou coisa de místico que foge ao catolicismo oficial. Estão absolutamente certos. Mas turismo e negócio interessa ao governo, que provê alguma infra-estrutura.
Não muita. Os albergues têm cozinha e umas panelas, beliches amontoadas em quartos grandes, ducha para o banho. Neste aqui, o banheiro tem uma porta e os boxes dos vasos são fechados. Mas o banho está aberto, então as pessoas vão se revezando. Há dois chuveiros, entram dois homens, depois duas mulheres, e vez por outra o sujeito abre a porta, vê uma senhora, fecha rapidinho pedindo desculpas.
Os albergues privados às vezes são bastante melhores. E às vezes não são nada diferentes e aqueles 10 euros parecem dinheiro jogado fora. Privacidade não é lá coisa à qual devemos nos ater no Camino e higiene, bem, o padrão não é dos melhores. Algumas das gentes se incomodam mais. Os latinos, principalmente. Os italianos são recatados, os espanhóis parece que se acostumaram. Os mais jovens não ligam, os mais velhos ficam ressabiados. Nem todos. Alemães e holandeses não estão nem aí para nada, tudo é muito natural.
A rotina é intensa. Às 22h as luzes se apagam, às 9h é melhor que não tenha sobrado ninguém. Todo mundo sai muito antes.
E embora quem garimpe ache albergues melhores por uns tostões razoáveis, sente-se um pouco que é desperdício. O Camino tem de ser vivido à européia e, aqui, dinheiro é coisa que se respeita muito. No segundo dia acompanhado de Margaux e Sebastiaan, tenho me sentido rejuvenescido, também. Quase estudante. São divertidos, espirituosos, curiosos, céticos.
Ontem, no trecho final, senti de volta a pontada na lateral do calcanhar esquerdo da qual tinha me livrado e alguma dor na coxa direita. Descobri que prefiro as subidas bem mais que as descidas; subindo você vai. Cansa, fica ofegante, mas segue. Para descer tem que ir freando, prestando atenção para não escorregar. Quase todos sentem no joelho. Disto, me livrei. O cajado ajuda. Confirmei que pisar na terra é muito melhor do que no asfalto. Asfalto não oferece qualquer amortecimento. Ontem foi descida quase o tempo todo e trechos demasiado longos pelo asfalto. Impacto maior do que o normal embora pareça, aparentemente, mais fácil.
Fazia já uns quatro dias que não tomava relaxantes musculares. Ontem à noite, tornei a eles. Vale. Não tem exame anti-doping na chegada.
Nós três, estudantes, temos dois planos diferentes para fazer o caminho final. Um dura três dias e nos deixa em Santiago no sábado; o segundo nos deixa sábado naquele que é, apropriadamente, chamado Monte do Gozo. Fica a cinco quilômetros de Santiago para uma entrada triunfal, no amanhecer do domingo. E aí é aproveitarmos a cidade descansados, tirar o certificado, passear, assistir à missa dos peregrinos no fim do dia.
Segundo a quilometragem do guia do El País, andei já 412,3 quilômetros. Já começa a dar vontade de terminar. Até porque a oportunidade do relaxamento, em meio à corrida, vai desaparecendo.
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Margaux é a primeira pessoa a quem pergunto, no Camino, porque o faz e não me responde. Ela diz que vai responder – mas não o faz, pensa. Sebastiaan, com quem anda, é anti-católico. “A Igreja anda com a cruz numa mão e uma espada na outra”, ele explica. E então aponta para a principal igreja de Portomarín, onde estamos. Tem duas torres e fendas para arqueiros. “É um castelo, é uma fortaleza, serve para a guerra”, diz satisfeito. De fato, é uma fortaleza.
São belgas – os únicos que conheci além de Bernard, ontem. Mas em tudo diferentes de seu compatriota. Ele tem 20, ela fará 18. Estão a ponto de entrar na universidade. Sebastiaan quer estudar história e, depois, especializar-se. Talvez em antropologia social, talvez em jornalismo. Ela estudará cultura árabe.
Nos conhecemos no meio do Camino da forma que as pessoas se conhecem. Andava sozinho, estava cansado, queria conversa. Comecei a prestar atenção nos grupos descansando. Uns senhores alemães estavam entretidos em sua língua; umas centenas de metros à frente, um casal italiano também não parecia muito aberto a uma língua franca. E nenhum sinal de espanhol ou inglês pela frente. Aí um gramadão e este casal jovem e simpático que, me pareceu, conversava em inglês.
Era flamengo, que é o nome que os belgas dão para seu holandês particular. Não tem nada a ver com inglês. Sentei-me no gramadão, puxei conversa, nos perguntamos de onde somos – no brasileiro Margaux saiu com seu português exato. É a primeira pessoa que conheço no Camino que fala português como segunda língua, coisa rara.
O seu é um sotaque difícil de descrever. Tem um quê de francês, talvez – com a diferença de que os franceses costumam ter sotaques fortes. Não é seu caso. Puxa os ésses qual carioca, fala fluente que só. É amiga de Sebastiaan, moram desde que nasceram na mesma vizinhança. Seu namorado, no entanto, é brasileiro. Baiano radicado no Rio. Mas ela prefere Sampa.
Vai entender.
Acha os cariocas fúteis enquanto a turma de São Paulo é solicita e amigável. Tem alguma razão, me parece – embora o fato de que tenha convivido com cariocas de praia mais do que os da noite boêmia me pareça ter influência na sua opinião.
Dia quente, na Galícia. Uma seca terrível que causa incêndios por toda parte. Quem fez o Camino mais de uma vez nesta época do ano diz que é a primeira vez que não têm de usar suas capas de chuva a toda hora. Lava-se a roupa, numa hora tudo seco. Esqueci minha toalha no último albergue, não pretendo comprar outra. Roupa úmida depois do banho refresca e seca logo de qualquer jeito, então não há diferença.
Há uma piscina pública por aqui – foi onde passamos o dia. Bastante agradável. Os dois puxaram o ritmo da caminhada então chegamos cedo, pouco depois das 13h. Em geral tenho encerrado meus dias, nos albergues, depois das 16h – embora nos últimos dias isto também se deva ao fato de que venho percorrendo mais de 25km. Hoje foi menos.
O marco foi o sinal do quilômetro 100. Agora, até Santiago, é questão de dias.
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Bernard é um tipo curioso. O conheci de manhã bem cedo, por volta das 7h, no albergue. É belga, anda com camisas de mangas compridas, calças, luvas e um boné que faz boa sombra e cobre a nuca. Mais vinte quilos: dez na mochila, dez noutra, que leva à frente. No topo da mochila carrega telas de captação de energia solar com as quais alimenta um pequeno computador de bolso com gps. Um dia saiu assim da porta de casa e, quarenta e tantos dias depois, cá está quase em Santiago.
De formação, é engenheiro eletrônico. Mas como é deficiente segue precocemente aposentado aos cinqüenta e poucos e vive da previdência belga. Tem que comunicar ao governo quando deixa o país e reingressar em no máximo três meses. Um homem com uns 1,85m que garante ter 67kg. Parece: magérrimo. Que tipo de deficiência pode causar a um engenheiro eletrônico com excelente forma física sua aposentadoria precoce é coisa para a imaginação de cada um. Não perguntei. Coisa de europeus.
Não dorme em albergues. Quando o encontrei, dividia conosco o café da manhã pelo qual pagou uns 3 euros. Dormiu no chão da garagem e economizou o dinheiro da cama. Mas é o único que conheci que anda com mais apetrechos eletrônicos do que eu.
É católico, diz. E fala de Jesus e dos ensinamentos de Jesus o tempo todo. Então explica que estuda Cabala e começa a explicar alguns dos fundamentos. “Você sabe que é uma espécie de misticismo judaico, não sabe?”, pergunto. Ele sabe. Mas o fato de tratar-se de superstição de certa forma incompatível com sua Igreja não o incomoda. Daí tece ligações do Novo Testamento com astrologia. Ergo uma sobrancelha. Ele retribui explicando que só é pecado se utilizar seu conhecimento de cabala e astrologia para prever as coisas. Se não fizer uso do que chama de magia negra, apenas conhecendo, não há problema.
Bernard tem teorias para explicar o que de secreto que pode abalar o Vaticano está nos Pergaminhos do Mar Morto e diz que uma das possibilidades tem algo a ver com aquilo que os Templários descobriram no Templo de Jerusalém. Sugiro que o Templo já não existia fazia alguns séculos quando os cavaleiros cristãos chegaram por lá. Ele informa que trata-se do que estava nos subterrâneos do Templo.
Vá. Estes de fato existem. E provavelmente estão vazios. Mas os muçulmanos não gostam da idéia de mexer nas fundações da mesquita de al-Aqsa então lá entra mais coisa para os místicos tecerem teorias.
Quando Bernard começa a especular sobre os descendentes de Jesus e Maria Madalena na França, pergunto se ele tem realmente certeza de que é católico. “Mais que o papa”, ele responde. Seriíssimo.
Não dormiu sozinho no estábulo transformado em garagem. Dividiu o chão com uma guria de Milão. Usa os cabelos no estilo rastafari – perguntei se seguia a religião. Ela explicou que não, as tranças eram apenas para não precisar limpar sempre. Me lembrou de Hattie, a inglesa que conheci faz uma semana. A diferença é que as trancinhas de Hattie, grudadas no couro cabeludo, estavam cuidadosamente organizadas e aprumadas. As da moça milanesa, que talvez nem chegue aos 20, são rastafari mesmo, uma massa de cabelo feito massa única de há tanto tempo sem banho.
Ela dorme na garagem, e sempre ao relento desde Milão, porque faz o Camino com seu cachorro e quer dormir sempre com ele. Diferentemente de Bernard, não acredita em nada. Acha até engraçado quando sugiro que possa seguir uma religião jamaicana. Não pela Jamaica; pela religião. Diz que pretende se encontrar no Camino. Mas ainda não aconteceu.
Santiago está chegando, já. Questão de dias. Não dá uma semana.
O grupo de turistas me diverte. Estamos nos encontrando faz uns três dias. São uns seis casais com seus 50, bem apessoados, as mulheres todas louras, os homens com pinta de executivos em férias, andam com as mesmas bermudas de uma empresa de turismo e umas sacolinhas leves com a logomarca da excursão e água e kits de primeiros socorros dentro. Além de dinheiro, câmera, celulares e quetais. Equipadíssimos: botas, cajados modernos, levam tudo muito a sério.
Ontem, enquanto subíamos até o Cebreiro ao mesmo tempo, fomos surpreendidos por um bando de vacas que descia a mesma trilha estreita. Há bandos de vacas andando por toda parte, na Galícia. Mas não sabíamos disto até aquela hora. E todas as vacas na Espanha têm chifres, não os cortam. Tinha acabado de ultrapassar os turistas meio mal-humorado quando as coisas vieram. Achei que não podiam fazer nada demais e fui andando no sentido contrário. Uma não teve dúvidas: chegou, balançou a cabeça e deu-me um chega para lá. Doer, não doeu. Mas que susto – fazer parte de uma corrida de vacas não estava nos planos. O sujeito que as tocava riu. As moças turistas e seus maridos, condoídos, acharam um absurdo.
Comecei a me divertir com eles. Eles fingem que fazem o Camino, eu não digo nada. Ando, ando, ando, nos encontramos toda hora e mesmo que caminhem mais lentamente sempre aparecem lá, duas cidades à frente. Hoje, quando nos vimos pela terceira vez, um comentou: Hombre, ande mais rápido. Eu ri. Eles riram. Estão de ônibus e ficam em bons hotéis; caminham só uns trechinhos.
Uma delas, durante uma pausa que dividimos à sombra duma árvore, enquanto reclamava de como doíam seus pés e eu sorria, falou de como estava sendo importante espiritualmente para ela o Camino. Eu fiz que sim com a cabeça. Ela deu uma piscadela. Senso de humor vale tudo. E sempre me perguntam se o braço ainda dói por conta da vaca.
Em algum ponto do dia, Bernard me ensinou que, ao ver vacas, devo parar e estender o cajado um pouco à frente. Elas nos vêem, se adiantam em nossa direção, percebem o cajado e passam ao largo. Funciona. Ainda assim incomoda. As vacas no Brasil não tem chifres e não costumam dividir as mesmas trilhas conosco.
A Galícia têm vistas que só disputam em beleza com a dos Pirineus, no Camino.
Amanhã cruzo o quilômetro 100 antes de Santiago.
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O Camino é todo muito exato e bem sinalizado desde a França: há setas amarelas por toda parte que impedem os peregrinos de se perderem. Elas o guiam por estradas, atalhos, florestas. Guiam nas cidades grandes e nos menores pueblos. Quando não são as setas amarelas em placas de trânsito ou em belos azulejos azuis dispostos nas paredes das casas, elas estão pintadas improvisadamente: nos muros, nas calçadas, nas ruas, em pedras no deserto. Nos raríssimos casos em que alguém não pintou uma seta e uma encruzilhada aparece no meio do nada, um voluntário dispõe pedras sobre o chão formando a seta.
É impossível se perder embora alguns consigam cometer a proeza. De fato, fosse no Brasil, alguém roubaria azulejos, pintaria setas indicando o sentido contrário, desmancharia as flechas de pedra. Mas nada do tipo acontece na Espanha.
As setas eram claras: logo após o albergue, no alto do Cebreiro, há dois caminhos que chegam na mesma cidade seguinte. Um pela autoestrada, outro pelo meio do bosque. O peregrino blogueiro pega o do bosque, evidentemente. Mais longo, talvez, mas ele está bem disposto – e a subida de 800 metros não era nenhum terror para o pobre bem descansado.
Chega a uma encruzilhada. Pode seguir pela direita, pode seguir pela esquerda.
Não há seta. Ou há. Duas. Uma para cada lado. É como se não tivesse. Se o galego é o portunhol de verdade, a Galícia é o Brasil da Espanha.
O pobre deita no chão a mochila, consulta o guia. O guia nada diz. Não caminhou mais que um quilômetro pelo bosque até ali. Mais prudente voltar e seguir pela estrada.
A cidade seguinte vem depois de uma descida. À esquerda, o caminho desce. À direita, sobe. O que não quer dizer que não desça uns metros à frente, mas o peregrino está convicto que intuiu certo. Anda mais um quilômetro, dá numa estrada. Um ciclista passa. É um espanhol – só que não dali. O espanhol acha que é só descer a estrada. O peregrino blogueiro já andou uns dois quilômetros. Mas decide descer a estrada.
Ao longe vê uma cidadezinha – um homem passa. Ele pergunta se é aquela.
Três quilômetros andados, um morro abaixo. Era para ter seguido à direita. Estava começando a descer a montanha que subiu horas antes. É praticamente impossível se perder mas tem gente que tem esta capacidade. Só teimosia explica. Vale.
Faltam 139 quilômetros para Santiago. Este princípio da Galícia tem bosques estupendos e mata fechada. São tantas as fazendas de pecuária que o lugar cheira a esterco em várias partes – um cheiro que traz boas lembranças a quem é do campo – eles garantem –, mas que não exatamente encantam um sujeito urbano.
É terra celta. As casas são celtas, os celeiros todos de pedra, celtas. O Cebreiro é uma graça, uma cidade minúscula onde as casas todas parecem ter saído de algum conto de fadas ou história de Tolkien. É diferente da arquitetura medieval que predomina no País Basco, mas é também tudo muito bonito e fascinante.
Com estrangeiros, os galegos não falam galego. Desconfiam. É coisa só dentre eles. Mesmo dois galegos que se encontram na rua, se não se conhecem, optam pelo castelhano. É coisa da intimidade, a língua: vem dos tempos de Franco, quando as línguas das províncias eram proibidas. A discrição não se manteve entre as outras comunidades mas por aqui, sim. Dizem eles que um dos motivos é uma vergonha particular: Franco era galego. Talvez seja só uma marca cultural – o galego é um pouco mineiro. Desconfiado. São atenciosos com os peregrinos que têm dúvidas – um me salvou – mas não se dispõem a dizer um Olá ou um Buenos dias a quem passa – ou mesmo um Buen camino. É a norma noutras partes. Aqui eles ficam só olhando ressabiados essa gente esquisita.
Os galegos têm um dos troços de terra mais exuberantes do país, quando se leva em conta a paisagem natural.
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A três ou quatro quilômetros daqui está o Cebreiro – arriba que só. Meus amigos israelenses o enfrentaram, hoje, após uma caminhada de umas cinco horas. Há uma certa competição a respeito de qual a pior subida do Camino. Uns dizem que é a que leva da França à Espanha; outros que é o Alto do Perdão, logo após Pamplona. O Cebreiro, entrada da Galícia, ganha o voto de terceiros.
A ver.
Ontem à noite, enquanto conversávamos, Alex e Yakov, dois da trupe, me perguntavam se era sempre assim difícil. Se sempre doía. Estão no Camino faz quatro dias – e meio chocados com a dificuldade que não passa, o peso das mochilas, as dores nas pernas, nos pés, nos calcanhares, nos joelhos, nas costas, nos ombros – as bolhas. Tem cada vez mais gente começando o Camino à volta. Em cada novo albergue aparece um ou outro novo. Quanto mais se aproxima do fim, da marca dos 100 km, mais gente.
Sorri: não, a dor não passa. Agora há pouco, levantei para buscar um copo d’água e quando os músculos estão frios e o dia já está indo embora, a temperatura lá fora caindo, não é que doa tudo. É que a dorzinha está lá. Quando termina a caminhada do dia, a planta dos pés dói. Também não é exatamente que aprendemos a tolerar a dor. É só que ela faz parte e vai ficando esquecida.
O albergue se chama Nossa Senhora da Aparecida do Brasil: e falar português é bom demais, comer macarrão com feijão no jantar, melhor. Os estrangeiros acham curioso – mas repetem o prato.
Itabyra, um goiano figura que toca o albergue, tem sua teoria particular a respeito do Camino: ele é sobre a noção de tempo. A impressão que temos é que tudo vai muito lentamente. Anda-se até pouco após o meio-dia – até umas 14h uns dias, outros até umas 15h. Senta-se no albergue, come-se, pés para cima, só depois das 21h que o sol vai se pondo. Ainda é escuro quando começamos a andar no dia seguinte – ou amanheceu faz pouco.
Tudo impressão.
O ritmo é intenso: se conversa com gente demais, se conhece gente demais – é pensando o tempo todo sobre as coisas todas. É tentar descobrir a cada curva onde se vai ficar. Uma cama num dia, outra no dia seguinte. Às vezes um lugar bacana, outras não. Que se vai comer e onde. À noite, planejar quanto se andará, em que cidade se pára.
Os israelenses perguntavam se a dor parava. Não é que a dor pare: é que ela deixa de ser importante. Me incomodou, não faz muitos dias, a quantidade de encontros e despedidas. Quando você percebe como está, acusa que é angústia. Mas não é que sejam encontros e despedidas em seqüência: é que o tempo interno corre mais rápido. As da vida estão concentradas. Byra tem razão. O Camino é uma mudança de percepção do tempo.
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A Porta do Perdão não está há mais que dez metros aqui do albergue. É grande, de arcos múltiplos – o mais externo entalhado com alto-relevo em pedra – sustentados por colunas. É a porta principal de uma igreja; em meados do século 13, um papa determinou que quem estivesse muito doente mas chegasse até aqui, para estes bastava cruzar a porta e era tal e qual fosse chegar em Santiago. Tinha todas as mesmas bênçãos.
Está fechada, no entanto. Fechada o dia inteiro. Entra-se na igreja por uma porta lateral. Não há atalho para o peregrino moderno.
Este albergue em Villafranca del Bierzo, apesar de colado à greja, é particular. O municipal fica apenas uns metros antes. Este, no entanto, é o prédio do antigo dormitório de peregrinos que já faz muitos séculos param por aqui – começou a ser recuperado apenas recentemente. Então é um privilégio. A gente do lugar é toda muito simpática, falam galego, e há bandeiras do Brasil por toda parte. Há maior está cheia de pequenos recados escritos com esferográfica, quase todos em português. Ser brasileiro não vale desconto nos seis euros da diária mas garante que se é recebido com festa.
Quando se vê o retrato de Paulo Coelho, muito discreto, entende-se.
O clima é meio hippie, um quê místico, e as paredes de pedra pintadas com cal estão cheias de pequenas lembrancinhas que misturam de ícones católicos ortodoxos a arcos de flecha tupis a retratos dos donos em momentos vários da vida a cartazes motivacionais a pequenas paisagens a óleo. Formam no total um ambiente agradável e aconchegantemente improvisado. Não é muito diferente do que seria em Visconde de Mauá, no estado do Rio.
Villafranca – ou o Bierzo, como a chamam – é uma das últimas cidades de Castilla e León. Nuns vinte quilômetros começa a Galícia. E no caminho até a cidade aparece pichado em galego, aqui e ali, Berço Galego Xá.
O verdadeiro portunhol é o galego.
Amanhã ou depois virá o segundo pior dia do Camino: a subida até O Cebreiro. Nuns cinco ou seis quilômetros sobe-se uns 800 metros. É íngreme – um bocado íngreme. De forma alguma é tão ruim quanto a subida inclemente de San Jean, no primeiro dia, que vai a 1.200 metros de altura, mas é difícil o suficiente. Além do quê, já se começa a subir em San Jean no início do dia. Para O Cebreiro é no fim de uma caminhada duns 17 a 19 quilômetros, dependendo de que guia se leia. Sou capaz de parar na última cidade e encarar o ladeirão depois de amanhã. Fisicamente me sinto bastante bem. Descansado, sem maiores dores. Vale andar um pouco menos um dia para continuar assim.
Por enquanto ando meio sem turma. Almocei com quatro israelenses divertidos. Um estava meio preocupado em descobrir a que hora começava o Shabbat oficialmente por aqui. É o único mais ou menos religioso. Os outros, como típicos israelenses, são não praticantes quais católicos brasileiros. Não têm a menor preocupação com a qualidade cristã do Camino. Um deles, o religioso, se chama Yakov. Como o santo.
Fiz um trecho do Camino do dia com uma estudante inglesa chamada Laura que andava rápido demais para que fosse possível acompanhá-la mais que uns quarenta minutos. Tenho conversado com Márcia, uma arquiteta gaúcha radicada em Floripa, mãe dum filho de 18 – e aprendido um bocado sobre legislação brasileira de preservação urbana e como ela é burlada.
Caminhar mais sozinho que acompanhado é surpreendentemente agradável.
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O Castelo dos Templários em Ponferrada, León, é tudo o que se espera de um castelo: tem torres com escadas em caracol estreitas, janelas que são não mais que cortes na fachada por onde se pode ver, atirar com a besta e não virar alvo de longe, arcos e mais arcos entre os pátios internos. Tudo o que ele não é, propriamente, é um Castelo de Templários.
Não há banca de jornal na Espanha que não tenha um estande de livros de bolso – e não há pilha de livros de bolso onde não existam dois ou três que prometem revelar os segredos dos templários. A moda é mundial, por certo – aqui é acirrada. E se é verdade que o castelo em Ponferrada, quilômetro 202 antes de Santiago, foi construído pelos templários – em seu tempo não havia torres, arcos ou frestas. Era uma coisinha de barro e cal. Todo o resto veio a partir de melhorias dos séculos 13, 14 e 15 – principalmente deste período final, tempo dos Reyes Católicos, unificadores do país.
O pôr do sol do alto de uma torre, no meio de um sítio arqueológico, é espetacular.
Fernando, rei de Aragão, e Isabela, rainha de Castela, só não são mais lembrados em monumentos por todo o país que, talvez, El Cid. Ou do que Santiago, a sua forma. No século 14, a Espanha não era Espanha – era um conjunto que incluía entre outros os reinos de Navarra, Aragão, Castela, Granada e Portugal. Espanha era o nome genérico para a Ibéria – Camões quem o disse. Aragão incluía as atuais Catalunha e Valência, que falam línguas muito parecidas. Diga devagar e um entende o outro. O casamento dos dois uniu Aragão e Castela, o primeiro em decadência econômica, o segundo em fase de crescimento, e disparou uma guerra civil de quem não se queria por perto. Fernando e Isabel resolveram a guerra civil apontando para um inimigo comum: os mouros em Granada.
A Guerra de Reconquista da terra invadida pelos árabes era pintada até há pouco tempo com ares de glória mas ficou politicamente incorreto. Hoje fala-se a mesma coisa só que baixinho. De glória, no entanto, não houve nada. E não porque tenha tido sangue – guerras têm.
Granada, em seus últimos tempos, vivia de divisas enviadas pelos primos ricos na África. A população diminuía, o fluxo de comércio decaía. A culpa era de Portugal, que já a pleno vapor em seus projetos de colonização e navegação, tinha dominado o mercado. O resultado – diz a historiografia contemporânea – é que Granada encontrava dificuldades de pagar os tributos a Castela que lhe garantiam a independência. Então os Reyes Católicos foram lá e puseram uma cruz em Alhambra.
Era dificuldade parecida que Aragão vivia – em seu caso, os comerciantes de Barcelona estavam enfrentando a concorrência pela intermediação dos produtos vindos do oriente de Gênova. E não foi à toa que, quando decidiram contratar alguém para fazer frente a Portugal, los reyes escolheram um genovês: Cristóvão Colombo. E como Castela tinha dinheiro mas Aragão não tinha, o reino de Isabel predominou sobre o de Fernando.
Os reinos, no entanto, continuam divididos. E na Catalunha ainda se fala catalão; em Valência, valenciano; em Navarra, basco – ou euskera, como dizem aqui; na Galícia, galego; em Portugal – português. Como este tinha mais dinheiro que todos por conta da ousadia marítima, apesar de ter flertado com a união entre finais do século 16 e início do 17, manteve-se independente, coisa que lá entre eles bascos e catalães gostariam muito.
Mais importante que a união, que há apenas mais ou menos, a grande herança dos Reyes Católicos é aquilo que chamam castelhano na Sefarad dos muçulmanos. No resto do mundo, a língua de Castela é chamada espanhol. Não é – não há uma língua da Espanha toda. Mas ficou sendo, e ficou sendo a língua das colônias americanas, e uma das mais faladas segundas línguas do mundo. Isto porque um dia Isabel casou com Fernando – e não ele com ela.
Vale.
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Estava amanhecendo na praça em frente à catedral de Burgos quando vi de longe Suzanne e Claudia. Nos acenamos, nos abraçamos, tivemos conversa para a manhã toda – ou quase. Da última vez que nos vimos, há uns dias, elas andavam rápido e a dor no tornozelo não me permitiu manter o ritmo. Ficamos de nos encontrar em Belorado, acabamos em albergues diferentes. Aí no dia seguinte interrompemos a caminhada em cidades diferentes. Em Burgos, novamente nos hospedamos em lugares distintos. Nos reencontramos por total acidente.
Que bom.
Às 10h45, entraram no ônibus para Léon, o mesmo que tomarei amanhã, às 6h45. Nesta hora, elas estarão reiniciando a caminhada. Eu, de lá, vou mais algumas cidades à frente noutro ônibus. Provavelmente jamais nos encontraremos de novo – mas tivemos a chance de trocar emails e prometer correspondência e envio de fotos em CDs ou DVDs. Como é bem possível que jamais reencontre novamente alguém da minha primeira turma, à minha frente um dia uma, dois outro – e que ficarão para trás quando o ônibus me lançar algumas dezenas de quilômetros mais próximo de Santiago. Mas também entre nós prometemos correspondência.
Passo a noite num hotel. É bem mais caro, 30 euros contra os três a seis pelos quais saem os albergues. Um luxo naquilo que é uma viagem na qual se gasta uns 25 euros por dia, alguns bem menos. Mas os albergues têm regras rígidas. A não ser que seja problema de saúde, o peregrino fica uma noite e toca para a cidade seguinte.
Agora à noite, passei onde dormi ontem para buscar minha mochila e trazê-la para o hotel. De manhã tinha saído com computador e um livro, não muito mais, na busca de cama. Hattie, que anda num ritmo propositalmente lento, estava lá à noite. Ao telefone. Nos acenamos de longe, saí – ela ainda falava. Depois pensei se não devia ter esperado.
Me despedi também de Andrzej, um professor de literatura polonês aposentado, fluente em espanhol e boa praça que só com quem tive algumas aulas de estilos arquitetônicos das igrejas espanholas. Um dia, no Camino, me disse que eu tinha a obrigação de conhecer Auschwitz. É perto da casa dele, se ofereceu como guia. Não sabia de qualquer interesse meu em particular pelo assunto – só acha que é obrigação humana conhecer o lugar. Catolicão, Andrzej. Nunca lhe falei que me lembra de rosto João Paulo 2o quando foi eleito. Enquanto nos despedíamos, cobrou novamente a visita. E me deu um cartão prometendo emails.
O encontro de ontem com Robert, o australiano que mora na Nova Zelândia e fez um bom dinheiro em 20 anos de Amway foi tão fugaz que não chegamos a cogitar manter contato. Há uns dias, quando nos conhecemos, perguntou se eu era da Califórnia. Qualquer um pode ser de qualquer lugar no Camino – e eu gostei de lembrar dos tempos de Califórnia. Entre Austrália, Califórnia e Rio, conversamos sobre surfe – sobre como eu gostaria de aprender um dia, sobre como ele aprendeu quando jovem e o porquê de suas irmãs não surfarem apesar de australianas. Foi uma tarde agradável. E quando nos vimos pela última vez aconteceu fugazmente como se fôssemos nos encontrar no dia seguinte. “Hey, Pedro!”, ele gritou – eu disse onde estava, ele falou onde ficou, “see you” nos dissemos. Mas não nos veremos mais.
Fora o de Hattie, os rostos eram todos diferentes no albergue esta noite. Não conhecia ninguém de vista. Amanhã chegarei no fim da tarde a um albergue, dormirei, acordarei, me porei de volta no Camino – desta vez, se tudo der certo, ininterruptamente até Santiago. Mais de 200 quilômetros andados, mais de 200 por andar. Se não for no primeiro dia, no segundo ou terceiro terei amigos, trocaremos confidências, contaremos detalhes às vezes profundamente pessoais. Discutiremos teologia, falaremos sobre o porquê desta caminhada. Apresentaremos receios, dúvidas, inquietações sem quaisquer das máscaras que costumamos vestir no dia-a-dia.
Já no terceiro dia, não terei apenas amigos e conhecidos. Conhecerei muita gente de vista. Saberei quem evitar nas camas próximas, em cada albergue, por causa de seus roncos à noite. E saberei quem está me evitando por perto por conta do meu ronco. Ao longo das horas de andança entre a manhã inteira e início da tarde, conhecerei gente pelas mochilas ou pelos cajados. Ouvirei queixas sobre bolhas, à sombra, numa pausa nalguma fonte d’água. Farei as minhas queixas também.
A facilidade com que desenvolvemos amizades profundas e criamos círculos de conhecidos para jogar tudo fora num estalar de dedos, neste Camino, é apavorante.
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Não é bonito entrar numa cidade grande a pé. Logroño, capital de La Rioja, já tinha oferecido uma prévia de o que viria – mas, para aquela, fui de táxi. Burgos é muito maior: foi, na virada do primeiro milênio, a maior cidade da Ibéria, centro de peregrinos que rumavam para Santiago. Se já não tem mais o status de centro cosmopolita espanhol – que perde para Barcelona e Madri – ainda é grande. Um bocado grande.
O peregrino se sente meio deslocado: está lá você de calças curtas, bota, meia alta, chapéu, colete cheio de bolsos para ter coisas à mão, mochila, cajado, entre campos de trigo, pinheiro ou girassóis. De tempos em tempos, vem lá um novo pueblo que se vê ao longe. São sempre iguais. Há uma torre de igreja, uma cidadezinha em volta que jamais parece ter mais que umas 50 casinhas. Mas aí, quando se entra numa destas cidadezinhas específicas, ao invés de atravessá-la para encontrar novos campos de alguma coisa as coisas começam a ficar cinzas.
Os jardins, maltratados.
Vai tudo empobrecendo rápido, a olhos vistos. Os muros estão pichados. Aí, uma autovia; e não há mais terra para pisar, só asfalto. Galpões e galpões aparecem em seqüência, fábricas, tráfego intenso de caminhões. É uma fuga da rotina dos últimos dias e, no entanto, tudo parece incrivelmente familiar. É a entrada de qualquer cidade grande. O que muda é a perspectiva: como pedestre, fica tudo diferente. E o pobre do peregrino, que estava um bocado à vontade com suas roupas e jeito sente-se, repentinamente, ridículo. Vale. Nada que algum senso de humor não cure.
Nada que o primeiro bar que não seja taverna local também não dê jeito: umas canecas de cerveja alemã depois, as dores se vão e o conforto de estar numa cidade grande aparece. Burgos merece ser conhecida, ficarei aqui mais um dia – no qual aproveitarei para calcular bem de onde vou. Daqui virá o pulo para começar a parte final do Camino que leva a Santiago.
As imagens seguem amanhã.
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A paisagem mudou e as pernas funcionaram: um bom dia no caminho para Santiago. Um bom dia que começou com uma boa noite. Quatro italianas me convidaram, no albergue, para acompanhá-las no jantar que preparavam. E num repente era jantar para todos hospedados, um espaguete al dente com molho de todo discreto, havia aqui um pouco de alho, ali umas pitadas de pimenta, maravilha.
A princípio pensei que as quatro formavam dois casais. Era um só casal e duas solteiras – e solteiras católicas, seriíssimas. A moça que preparou-nos pasta e molho, diziam, estava pronta para casar, brincadeira de tia. Foram as únicas que não perceberam que já estava casada.
Nos 25 quilômetros do dia, a paisagem mudou. Foram-se os campos de trigo, substituídos conforme subíamos a serra por bosques de pinheiros interrompidos por estupendas plantações de girassóis. Na primeira metade, me acompanharam duas meninas, uma inglesa animada, antropóloga, chamada Hattie; e uma canadense de Québec com inglês picado chamada Stephanie.
Hattie é uma graça: o cabelo louro, usa-o num penteado de muitas tranças rente ao couro no estilo africano. “Assim não preciso passar xampú todo dia”, explica e ri. Não acredita em Deus – a viagem, para ela que acaba de deixar a universidade e para muitos europeus, é turismo onde se vê muita história, se conhece muita gente e se gasta muito pouco. Gosta de macacos e de como macacos interagem – e, antes do Camino, visitou pela Espanha sítios arqueológicos de neandertais.
França e Espanha são terra do cromagnon e do neandertal; os primeiros viraram os bascos. Formam a comunidade do Homo sapiens que está há mais tempo num mesmo lugar sem ter migrado. Os outros são uma espécie de homem paralela à nossa. Se dissolveram tendo filhos conosco ou os levamos à extinção uns milhares de séculos atrás. Não se sabe ao certo.
Hattie me perguntou o que pretendo dizer aos padres em Santiago no momento em que pedirei a Compostella, meu diploma de peregrino. Perguntei o porquê. Descobri que só dão o diploma para quem realmente está numa busca espiritual. Quando pergunto a ela se acredita em Deus, diz que não. Mas acredita “em algo”.
A segunda metade do trecho, eu a fiz sozinho. A princípio pensei em como orientar o discurso para convencer algum padre de minhas mais que sinceras intenções. Por que se faz uma peregrinagem? Eu a faço porque estou seguindo um ritual. Um ritual que pertence à minha cultura que é ibérica: latina, judia, moura. É um ritual de passagem, um tempo para pensar, para assentar. A vida não é mole, não, companheiro diz o Vinícius num dos sambas afro. E não é. Foi um ano de separação, e separação é dessas coisas brutais que nos acontecem aqui e ali. Então umas semanas de caminhada num cenário diferente trazem a pausa necessária, o desligar da rotina.
A saudade da filha aperta como o diabo mas voltarei melhor. A saudade da namorada é reconfortante, indício de vida à frente.
Mas isto não é uma busca espiritual. Quando alguns que obviamente são ateus dizem que acreditam “em algo”, o que isto quer dizer? Todo mundo acredita em algo. Que fazemos parte dum todo? É evidente que fazemos. Nossa espécie tem vida como outras a tem; e há coisas que não têm vida mas das quais precisamos. E aí está um mecanismo não apenas sofisticado como bonito e fascinante. O sistema funciona e busca sempre seu equilíbrio. Se arruinamos este equilíbrio, se não o respeitamos, não apenas corremos o risco de levar determinadas espécies à extinção como pioramos nossa vida. Às vezes, um bocado. Se não pioramos a nossa vida, certamente a das gerações vindouras de nossa espécie, coisa que é burra como os diabos e anti-natural. E isto é imperdoável para nós que, dentre todos os outros viventes, somos os únicos que entendemos que somos mecanismos programados para sobreviver. Não individualmente, mas como espécie.
De repente percebi, me senti um pouco ofendido pelo comentário de alguns dias de Suzanne: o de que não acreditava que ateus realmente não acreditam em nada. Aí, um instante: a crença é irracional. Não há um Deus a não ser que você o decida criar – e, evidentemente, todos são livres para fazê-lo. E alguns sentem que é um pouco desagradável, que é pouco educado, dizer de cara que não, não acreditam. Mas Deus é algo que nasce da mente, ou do coletivo de mentes. No fundo, é até um processo meio aleatório. O Deus que cristãos, judeus e muçulmanos dividem não é muito diferente de Zeus ou do Zumé dos tupis. A teologia talvez tenha até se sofisticado, mas no fundo acredita-se num apenas porque pertence à cultura do tempo. Tudo perfeito, cada um na sua. Não vai aqui qualquer ofensa. A Igreja nos deu arte da melhor qualidade.
Houve um padre simpático num dos albergues que estava evidentemente preocupado com o bem-estar de todos; e gostei dele. Era uma figura paternal, muitos padres – assim como muitos rabinos, o são. Figuras agradáveis, em geral gente profundamente culta. Robert, um australiano catolicíssimo que está hospedado aqui em Agés comigo, fala encantado dos pequenos milagres do dia e de como vê Deus em cada um. E estes pequenos bons momentos, quando encaramos o Camino, de certa forma nos encantam a todos. O primeiro campo de girassóis que você vê arranca um sorriso do coração mais duro. Mas isto não tem nada a ver com Deus, tem a ver com perceber que o mundo é bonito e que fazemos parte dele e que isto é bom. Deus entra contrabandeado por quem o quer lá. Direito legítimo.
Mas não é falta de educação dizer com franqueza que não acredita. Mais que isso: que vê até com espanto que há gente que ainda acredite.
Num determinado momento do Camino, no meio do nada, entre pinheiros no bosque, ergue-se um monolito. Há uma data, 1936, e uma placa simples: “Sua morte não foi em vão; sua execução é que foi”. Nenhum nome – poderia ser onde caiu morto Federico Garcia Lorca. Aqui eles chamam o movimento que manteve o generalíssimo Franco no poder de nacional catolicismo. Não é nacional socialismo; não é fascismo. É nacional catolicismo. A Igreja foi parceira. Seus pecados são muitos e nem todos caem remotos no passado.
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Os sinos começam a bater às 11h50, mais ou menos quando chego ao vilarejo. Há duas senhoras na rua, uma de cabelos já não mais grisalhos – são todos brancos; a outra, um quê mais jovem e no entanto passada dos 70, lhe oferece o braço. Vão à missa de domingo. Minha primeira impressão, a confirmar o que vi até agora, é que este é o público ao qual se restringe a Igreja espanhola.
Sento-me à praça da igreja para beber uns goles d’água fresca da fonte e descansar. Estou sozinho – me despedi das moças germânicas que queriam andar mais rápido na primeira hora de caminhada do dia, o sol havia mal aparecido. Um senhor puxa conversa, pergunta de onde vim, até onde vou hoje. Um Vectra pára: dele salta um homem que deve ter passado faz pouco dos quarenta, veste jeans e camisa social de mangas curtas. Conversa com familiaridade com as senhoras.
É o padre.
Quando chega o meio-dia e os sinos tocam novamente, ele se apressa para dentro. Mais pessoas vão chegando. Senhores e senhoras, mas também homens e mulheres de meia idade, gente com trinta e poucos, crianças, uma menina com seus 25, bonita, carrinhos de bebê. No total entram uns quarenta no prédio. Ainda antes de 12h15, um ou dois, apressados, roupas de domingo, aparecem de uma das ruazinhas e atravessa a porta. É um pueblo pequeno, não deve ter muito mais que 40 pessoas para assistir à missa. Está cheia. Com uma única exceção. Um senhor com cara mal-humorada permanece do lado de fora, não quer conversa com ninguém. Anda de um lado para o outro. Tem por certo algum problema, mas mesmo fora está de todo integrado ao ritual católico no interior.
Esta é a primeira cidadezinha de Castilla – deixei La Rioja, hoje. Cheguei por volta das 15h a Belorado, uma cidade maior,e meu destino final. A paisagem é uma repetição dos campos de trigo da véspera, aqui e ali uma plantação de tabaco. O osso do calcanhar ainda incomodou um pouco – nada de grave perante o que já foi.
A edição do dia do El País traz uma longa entrevista com o monsenhor Josep Maria Soler, abade do mosteiro de Montserrat, o principal da Catalunha e dentre os mais tradicionais da Espanha. É um homem de 60 anos muito respeitado, conservador, e mete o sarrafo na Confederação Nacional dos Bispos. Tem chamada com foto na dobra de cima da primeira página. Diz que muitos dos membros da CNBE têm saudades dos tempos do generalíssimo Franco. E que, se não entendem por que o povo espanhol se afasta do catolicismo, é sua a incompetência. A entrevista é direta, tem perguntas agressivas e respostas que não fogem ao ponto jamais.
El País: Talvez aquilo do qual a Igreja não quer, ou não pode, se libertar é do recurso da explicação fantástica, infantil, da experiência religiosa. De repente é por isso que as pessoas de hoje, vivendo em liberdade e na racionalidade, não encontrem respaldo. Por que continua esta atitude?
Abade Soler: Porque eles não sabem fazer outra coisa. Porque é mais complicado, mais exigente, propor a pessoa de Jesus de um ponto de vista inteligente que não repugne a racionalidade. […] E não é assim em todos os lugares. Foi mais fácil introduzir a concepção fantástica do ser religioso na Galícia do que na Catalunha. Do jeito que vejo, este ideal fantástico prostitui a verdadeira natureza da fé que é uma adesão racional a partir da afetividade e da inteligência a uma crença.
Muitos dos problemas que a Igreja tem hoje se devem a uma crise do recurso ao fantástico que até há pouco apontava umas verdades incontestáveis. Estas verdades são contestadas pelo homem moderno, perante ao qual se desmontam. […] É o caso da moral sexual, por exemplo. A Igreja resiste a revisar seus critérios, embora devesse pô-los no contexto da ciência, da medicina, da antropologia. Esta reflexão urge.
É um domingo de catolicismo espanhol – e de crise deste catolicismo, pois. Às vezes até dá vontade de assistir a uma missa. Me prometo fazê-lo quase todo dia – sempre há missas para peregrinos nas igrejas próximas aos albergues. Fazem parte do Camino. Mas sempre há algo mais divertido para fazer na mesma hora. De repente, em Santiago.
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Hoje surgiu minha primeira bolha. No dedão da mão direita. Por conta do cajado. No pé, nada. Bolhas eram minhas maiores preocupações quando deixei o Brasil. Era certo: bolhas me impediriam de andar fatalmente. Botas boas, meias especiais, meias sobre as meias, estudo profundo de todas as táticas. Resultado? Nenhuma bolha.
Em compensação: tendinite na direita, dor muscular na coxa direita, dor na base dos pés, dois rasgos na cintura onde a mochila é segura pelo cinto, desde hoje um incômodo roçar do osso lateral do calcanhar na bota e, por fim, o raio de uma erisipela na perna esquerda. Esta é uma infecção bacteriana subcutânea que contraí sabe-se lá como. Esta sim, no auge, dói de paralisar.
Santiago é cruel com os infiéis.
Me acompanharam nos 20 quilômetros do dia até Santo Domingo de Calzadas uma professora de religião alemã, Suzanne, e uma futura universitária austríaca, Claudia. Começa a escola em Viena no final do ano mas ainda não decidiu o que estudará. É um pedaço de estrada cheio de paisagens de Van Gogh, com muito feno, campos abertos e céus vastos. (A Holanda não é longe.)
As duas se conheceram no avião, numa escala entre Londres e Espanha, antes de chegarem a San Jean. O namorado de uma ficou com os pés imprestáveis e teve de voltar; o outro entediou-se e pegou um trem para a Castilha – quis fazer a parte final do Camino sozinho. Então as duas andam juntas.
Suzanne é um papo divertido: juntos tentamos resolver os problemas da Igreja para o papa. Parece que é só sobre o que falamos. Por que a Igreja não aceita contraceptivos? Ou camisinhas para prevenção de doenças? Ou divórcio? Ou casamento de homossexuais? Apesar do papa, os católicos alemães são liberais e tendem a achar que certas coisas virão com o tempo. Tolerância para com gays, é um caso. Contraceptivos, outro.
Mas ela se mostra um bocado intolerante com a idéia de divórcio. Achei que fosse a questão menos polêmica para os católicos. Apesar dos 30 anos, no entanto, e de vários namoros, mantém-se convicta de que o casamento é uma etapa fundamental do tipo que deve ser bem calculada e que, uma vez decidido: para sempre. E se o marido bate, pergunto? “Se você viveu tempo o suficiente com ele antes de casar, sabe que isso não vai acontecer.” Faço cara de que não entendi. “Mas eu morei com todos meus namorados importantes.”
Decididamente: temos conceitos de todo diversos de o que é casamento.
Claudia é um bocado divertida e bem-humorada. Desde que a discussão não envolva religião. E religião é sobre o que eu e Suzanne discutimos o tempo todo. Fica entediada, a moça. Acha que discutimos o sexo dos anjos. Está de todo certa, evidentemente.
Suzanne me pergunta o que quero dizer quando digo que não acredito em Deus. Explico que não acredito, só isso. Mas em que Deus, ela quer saber. Em nenhum não é resposta que seja suficiente. “Não acredito que ateus realmente não acreditem em nada; acho que eles não acreditam naquilo que imaginam que os crentes acreditam. No fundo todos acreditamos em Deus, é natural.” Esta nunca tinha ouvido.
Vale.
Uma vez, há muitos séculos, um casal de alemães fazia o Camino com seu filho e pararam na casa do castelão aqui em Santo Domingo. A filha do todo-poderoso local se encantou pelo rapaz – mas ele não manifestou qualquer interesse. Frustrada, escondeu nas coisas dele uma taça de prata.
No dia seguinte, quando já estavam a meio caminho da cidade seguinte, a família foi interceptada pelos guardas que encontraram a taça ‘roubada’. Foi condenado à forca pela infelicidade dos pais, que seguiram no Camino hasta Santiago.
Quando voltavam, um mês e meio depois, encontraram o filho ainda vivo, pendurado pelo pescoço na árvore. Abaixo, Santiago o segurava. Foram ao castelão comunicar o fato que provava – assim é a história, então provava, pronto – a inocência do rapaz. Irritado, o homem que comia um frango respondeu: “Seu filho está tão vivo quanto este galo é capaz de cantar.”
O frango assado levantou-se, bateu as asas e cantou.
Santo Domingo é ainda hoje conhecida como a cidade onde o galo morto cantou e, em todas as lojas de souvenires, há galos de pelúcia.
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Majella, com quem caminhei nos primeiros dias, tem blog.
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Tomei por hábito, nestes últimos dias, comprar a edição do El País pela manhã; hoje, como andei de verdade e já passava das duas quando cheguei em Nájeda, não havia onde comprá-lo. Tudo fechado por conta da siesta.
É um jornal que dá prazer de ler, não tem igual no Brasil. E a Espanha está agitada, vive momentos de uma profunda discussão interna, uma busca de identidade e responsabilidade e compreensão de que país deseja ser no futuro. Há muito o que ler. Não só a responsabilidade pelos acidentes de trem – e daí discussões sobre sindicato e obrigações profissionais – tem mobilizado a opinião das gentes, como também a legalização do braço político do ETA e – principalmente – a situação dos migrantes ilegais que vêm da África clandestinos em navios que devem ter condições piores do que as dos negreiros de antanho. Morre parte na viagem.
O país está dividido profundamente. Há racismo e revolta pelo racismo. “Se seu Deus é judeu, seu carro japonês, sua pizza italiana, sua gasolina argelina, seu café brasileiro, suas férias marroquinas, seus números árabes, suas letras latinas, como se atreve a chamar seu vizinho de estrangeiro?”, pergunta agressivamente um cartaz.
Anteontem, um leitor do El País lembrava que o último pesqueiro que interceptou um grupo de adolescentes em barcas pegava mariscos entre as Canárias e a África. Os mariscos africanos são bem-vindos, ele dizia, os garotos que passam fome e estão atrás não de uma vida melhor mas de uma esperança de vida, eles não têm documentos, não podem entrar. Como se a Europa não tivesse nenhuma responsabilidade, no passado, no presente, pela fome e pobreza no continente vizinho.
Talvez exista maniqueísmo aí – mas cá está um país que faz auto-crítica com severidade, que se discute e se debate. Dá vontade de ter um igual.
Um amigo de Camino, há dois dias, enquanto caminhávamos por Logroño a procura de vinho, de repente pôs-se em silêncio. Era espanhol e estava no meio de uma divertida aula de gírias valencianas. Perguntei por que calou-se. “Mira“, comentou indicando um grupo animado no outro lado da rua. Não entendi. “São ciganos”, ele explicou. Não estavam vestidos de forma alguma que o indicasse. “Como sabe?”, perguntei. “A cor da pele é mais escura, não percebe?”
Não percebia, não – mas talvez nós brasileiros tenhamos olhos menos ajustados a variações tênues de tons de pele. E talvez ciganos sejam, de fato, perigosos. Vá saber.
É divertido caminhar, ainda mais por entre vinhas intermináveis, aqui e ali colhendo uma uva. Parecem lindas, muitas vezes, promissoras de um sabor muito doce. Mas uvas de vinho sempre nos traem, ácidas. Em algumas das vinhas há plaquinhas indicando a qualidade: Moscatel, tempranillo e as tantas outras cepas espanholas. Parecem todas iguais.
No trecho entre Navarrete e aqui há também várias pilhas de pedras. Parecem algo místico, devem ter algum significado. Gostei de imaginar comigo que tinha a ver com um convite a discos voadores e deuses astronautas. Vale. Alguém no caminho me explicou que simulam o monumento que Abraão ergueu a Javé após seu Deus ter poupado a vida de seu filho. Não lembro a passagem e não conheço lá muito bem o Velho Testamento. Há de ser.Andei principalmente sozinho os 20 quilômetros que separam as cidades – no estirão final acompanhei uma alemã. São muitos os alemães. Ela me explicou que o Camino é dividido em três partes. Até Burgos você vive as dores do corpo; de Burgos a León, quando a paisagem é mais monótona, o corpo já não incomoda mais e vive-se um encontro espiritual. No fim talvez venha a iluminação.
É a parte do meio que vou pular – embora, vá, alguém já deve ter dito que não há atalho para a iluminação. Vida que segue.
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Poucas coisas têm me divertido mais, nestas férias, do que ‘escrever’ para Laura, minha filha.
Escrever, entre aspas, é porque com 4 anos não se lê. Então faço filmes.
Talvez vocês gostem das cartas de um pai.
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“Fiz este Camino mas vezes do que tu tens de anos na vida. A primeira vez foi em 1971. Você era nascido em 1971?” Faço que não, Marcelino sorri. “Naquele ano fomos 26 que chegamos em Santiago? Consegue imaginar uma coisa destas? E não era este Camino bonito que vocês fazem, não. Não havia setas no chão. Tínhamos que inventá-lo. Era pelas estradas. Às vezes, batíamos em muros de dois metros que tínhamos de escalar para dar numa autovia que nos levaria a Santiago. Fui com sandália de couro, com capa de peregrino, com esta minha barba.”
É uma longa barba, grisalha com manchas de negro. Seus dentes debaixo estão um quê tomados pelo tártaro, os de cima incrivelmente limpos, muito brancos. Olhos profundamente azuis destacados do rosto pelos cabelos e pela barba, como que emoldurados. Todos os dias, Marcelino se põe quando ainda é madrugada no fim do parque de Logroño, capital do estado de La Rioja. Espera os peregrinos. Têm cajados feitos de madeira, todos muito bem lixados, uma caixa de maçãs verdes frescas, outra de biscoitos integrais. É um bom café, tudo de graça. Um peregrino se oferece para pagar algo pelo cajado que leva – este é o caminho para ofender Marcelino.
Ele lembra um pouco o Profeta Gentileza, que há uns anos pintava mensagens de amor e de paz nos viadutos do Rio. Mas lembra também, dada a barba, o ator Mel Gibson no filme sobre os maias que pretende lançar.
Gosta de conversar. “Vocês jovens não têm do que reclamar. Hoje vão à praia e estão lá as chicas guapas com os peitos para fora. Minha filha pode ir, minha mulher pode, ninguém fará nada. Seguro. Quando eu tinha sua idade, uns amigos foram até a Suíça e trouxeram uma revista pornográfica. Eu a guardava debaixo do colchão. Se minha mãe descobrisse, valha-me.” Não é carola, Marcelino, e é generoso com a idade de quem conversa.
Uma nova leva de peregrinos chega – como quando nós chegamos, chegam desconfiados. Não parecem acreditar no cartaz que diz que é tudo de graça e que alerta para que ninguém tente uma doação. Tentativamente, uma menina pega uma maçã. Então, os outros, delicadamente, vão. Marcelino se despede de nós com beijos nas bochechas, sugere que prestemos mais atenção nas mulheres – estão mais guapas a cada ano, seguro. (A namorada não vai gostar, penso. Não há perigo. ) Marcelino informa que não existem peregrinos. Somos irmãos.
Andamos em silêncio. É uma trupe nova. Pergunto a um bioquímico de cabelos grisalhos por que faz o Camino. “Sou polonês”, ele responde surpreso. Não entendo a resposta. “Você conhece algum polonês que não seja católico?”, explica. Paro. Dois segundos. Três. Não vale a resposta. Cinco segundos. “Todos os poloneses que conheço são judeus”, digo. “Não são poucos e são amigos”, completo. “Não os na Polônia”, ele diz rápido, aí se arrepende. Olha para mim desconfiado. Cai em silêncio. “Eram 10% da população antes da Guerra”, completa. Eu faço que sim com a cabeça, ele aperta o passo para conversar com o grupo seguinte. Não nos vemos mais.
O vinho melhora de qualidade estupendamente em La Rioja. No País Basco, bebe-se o vinho barato da Casa misturado com La Casera, espécie de água tônica. Aqui, uma taça dum Crianza sai por euro e pouco, misturar é pecado, e desce suave que só.
Depois de dois dias parado com a perna inchada para o ar, erisipela dominada, médico tendo liberado, não chego a andar 20 quilômetros. Otávio Frias Filho, diretor da Folha de S. Paulo, em sua reportagem sobre o Camino, disse que o que ouviu é que Paulo Coelho fez parte de táxi. Ontem, cumpri o trecho de pouco mais de 10 quilômetros entre Viana e Logroño de táxi. À frente, vou pular mais, de ônibus. Trens não estão lá muito seguros por aqui.
Em Navarrete, uma pequena cidade dormitório com ruínas aqui e ali, alugo um apartamento para a noite por menos do que cobra o hotel local, embora mais do que custa o albergue. É bom ter uma cama, um chuveiro, é bom não ter horários pela primeira vez.
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